sábado, fevereiro 24, 2018

Qual a geometria do Universo?

O Universo será euclidiano, elíptico ou hiperbólico? Há mais de um século Carl Gauss colocou a mesma pergunta. Concluiu que , se pudesse medir os três ângulos internos de um triângulo formado por três estrelas longínquas obteria a resposta. Sabemos que se a soma dos três ângulos for = 180º, a geometria do Universo será euclidiana; se a soma dos três ângulos for > 180º, a geometria do Universo será elíptica (esférica); se a soma dos três ângulos for < 180º, a geometria do Universo será hiperbólica.
Na impossibilidade de calcular as medidas entre estrelas, Carl Gauss concebeu um tal triângulo, formado pelas montanhas de Hohenhagen, Inselberg e Brocken, em Hanover, para testar se a soma daria 180º. Embora o triângulo de Gauss não fosse suficientemente grande e a experiência tivesse sido inconclusiva, devido a dificuldades em medir ângulos com precisão, deixou ficar no ar que Euclides poderia estar errado.
Contudo em 1919, uma das experiências mais famosas mostrou que a ideia de um espaço curvo não era uma fantasia matemática. De acordo com a teoria da relatividade geral de Einstein, publicada 4 anos antes, o espaço é encurvado pela gravidade, o que leva a que a luz nem sempre se desloque em linha reta, pelo menos de acordo com a noção euclidiana de reta. O efeito é difícil de ser detetado, mas a oportunidade surgiu em 1919 com o eclipse total do Sol, visível da ilha do Príncipe (Arquipélago de Sº Tomé). Enquanto sucedia, o físico Arthur Eddington tirou uma fotografia que mostrou as estrelas perto do Sol que não aparentavam estar nos seus locais - exatamente como Einstein previra.
Contudo estes estudos não foram conclusivos. Em 1981, Alan Guth introduziu o conceito de densidade do Universo: a massa total da matéria por unidade de volume. Existe um valor crítico P0 = 4.10ˉ²⁷ Kg/m³ que determina a natureza do Universo, assim como a sua evolução futura. Se a densidade for > P0 a geometria será esférica e no futuro o universo entrará em colapso; Se a densidade for = P0 a geometria será euclidiana e Universo estará em expansão suave; Se a densidade for < P0 a geometria será hiperbólica e o Universo estará em forte expansão. A massa calculada até hoje é < P0...por agora, portanto, o Universo parece ser hiperbólico, estando assim em forte expansão.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

A Lição de Copérnico

Faz hoje exatamente 545 anos que nasceu o polaco Nicolau Copérnico (Torun, 19 de fevereiro de 1473 — Frauenburgo, 24 de maio de 1543). Foi ele que recolocou o Sol no seu devido lugar, oficializou o modelo heliocêntrico e deu o pontapé de partida para a astronomia moderna. 
Bem, na verdade não terá sido o primeiro a defender esta tese. Muito antes dele, Aristarco de Samos já havia defendido que era o Sol, e não a Terra, o centro do Sistema Solar. Defendeu que todos os planetas giravam à volta do Sol e não da Terra. Mil e setecentos anos depois, Nicolau Copérnico vem reconfirmar esta hipótese. 
A resistência a Aristarco e a Copérnico, uma espécie de geocentrismo na vida quotidiana continua entre nós, 2200 anos depois de Aristarco de Samos!
A grande lição de Aristarco e Copérnico é esta: nem nós nem o nosso planeta gozamos de uma posição privilegiada na natureza. Descobrimos que vivemos num mundo insignificante de um sistema solar que ocupa a periferia da Via Láctea.
Muitos de nós, secretamente, deploramos estas descobertas, pois continuamos a suspirar por um universo cujo centro seja a Terra... aos poucos vão sendo contrariadas as nossas esperanças de um estatuto preferencial a que não temos direito! O Universo nem parece benigno nem hóstil - simplesmente indiferente aos problemas de criaturas tão insignificantemente convencidas como nós.
Adaptado de Cosmos, Carl Sagan

Hoje sabemos que a nossa galáxia é relativamente insignificante. Pertence a um enxame que tem cerca de 30 galáxias, o chamado Grupo Local. Este enxame é um dos mais pequenos do Universo conhecido. Somos "nada" na imensidão do cosmos...

sábado, janeiro 20, 2018

Geomagnetismo - Parte II

As linhas que ligam pontos à mesma distância dos pólos magnéticos em forma de pequenas circunferências concêntricas recebem o nome de isolinhas. Estas isolinhas magnéticas podem ser comparadas com os paralelos e meridianos de um mapa. Se o pólo norte magnético fosse coincidente com o geográfico, as isolinhas relativas às propriedades magnéticas coincidiriam precisamente com os paralelos. Desta forma, para qualquer ponto ponto P, o mapa fornece os seguintes dados: 1 - a direção do norte magnético a partir de P; 2 - a latitude magnética e, daqui, a distância ao norte magnético. No gráfico podemos ver a relação entre o ângulo de inclinação, a latitude magnética e a distância ao pólo magnético. (A partir deste gráfico podemos determinar a origem geográfica de determinada rocha e saber, assim, se ela está afastada ou não do seu local de origem).
Quanto á origem, o campo magnético não é causado por rochas magnetizadas no núcleo, dado que a temperatura é muito alta (os ímanes perdem as suas propriedades magnéticas se forem aquecidos). A rotação da Terra causa um movimento convectivo nos fluídos do núcleo externo, ao qual estão associadas correntes eléctricas. A interação destas correntes eléctricas com a rotação mecânica dos fluídos gera, então, um campo magnético auto-sustentável. 
 
Alguns materiais têm estruturas atómicas que mudam sobre a influência de um campo magnético. Grupos atómicos pequenos orientam-se paralelamente às linhas de força magnética, tal como se fossem agulhas de bússolas. O esquema mostra um derrame de lava. À medida que desliza, vai arrefecendo e cristalizando. Estes cristais são de vários minerais e entre eles está o da magnetite. Á medida que esta fica sujeita a temperaturas menores (500ºC),os grupos atómicos dentro do mineral, começam a dispor-se em linhas paralelas entre si e à direção das linhas de força magnética. Quando se atingem os 450ºC, o arranjo dos átomos dos minerais de magnetite são bloqueados, não saindo mais do lugar. Preservam, assim, o registo do campo magnético terrestre, ao tempo do seu arrefecimento. Esta "magnetização fóssil" dá-nos a direção do norte magnético, quando a rocha foi formada e a distância da rocha ao pólo norte magnético. Em resumo, imaginemos que o vulcão da figura está a formar uma ilha neste momento (2018), junto do equador. Daqui a 100 milhões de anos essa ilha poderia estar mais para norte, por exemplo (arrastada pelo movimento das placas litosférias). Ao analisarmos os minerais de magnetite saberíamos que ela se formou num local diferente (mais para sul). Os valores de intensidade e direção do campo magnético apresentados pela magnetite não seriam compatíveis com essa posição geográfica.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Geomagnetismo - parte I

Os navegadores antigos achavam a sua rota nos oceanos usando uma rocha especial que era influenciada pelo invisível (e na altura desconhecido) campo magnético da Terra. A pedra-ferro era uma rocha que, hoje, se sabe composta por óxidos de ferro, que têm propriedades magnéticas. Na altura, os navegadores suspendiam um bocado de pedra-ferro, de modo a esta rodar livremente e repararam que ela se orientava sempre segundo a mesma posição em relação ao pólo norte geográfico. Para tal faziam uma marca na parte da pedra que buscava o norte - estava assim descoberta a bússola.
Foi em 1600 que William Gilbert examinou ao pormenor a pedra-ferro, tendo concluído que a Terra tem um campo magnético próprio, semelhante a um íman gigantesco (na realidade não existe qualquer íman). O íman hipotético está orientado com o seu pólo sul apontando o pólo norte magnético, arranjo este necessário à obtenção das linhas de força magnética que fazem girar, para norte, os pólos norte das agulhas das bússolas. As direções e os sentidos do campo são representados pelas setas nas linhas de força.
O campo magnético num ponto qualquer é definido por duas grandezas: a direção de campo e a intensidade de campo. A intensidade do campo magnético diminui com o aumento da distância aos pólos magnéticos (na figura anterior as linhas estão mais próximas perto dos pólos - maior intensidade; e afastam-se com a distância aos pólos - menor intensidade). Em teoria, em todos os pontos da superfície terrestre a igual distância do pólo norte magnético, a intensidade do campo magnético deveria ser a mesma e o ângulo de inclinação deveria ser o mesmo. 
Na figura da direita, a seta (inclinada) representa um vetor com o seu comprimento proporcional à intensidade do campo. A posição do vetor no espaço é definida por dois ângulos: O ângulo de declinação (theta W) que o referencia no sistema de coordenadas da Terra, e o ângulo de inclinação (alpha N), que fixa o vetor no espaço em relação ao plano horizontal.

 

domingo, novembro 26, 2017

Teoria da evolução


O (neo)darwinismo parece necessitar mais de ser defendido do que outras verdades, identicamente estabelecidas, de outros ramos da ciência. Muitos de nós não aprendemos a teoria quântica, ou a teoria da relatividade restrita e geral de Einstein, mas isso, por si só, não nos leva a opor-nos a estas teorias! Porquê?

Ao contrário das outras teorias mencionadas - teoria quântica, ou a teoria da relatividade restrita e geral, a teoria da evolução mexe com as nossas origens de daí causar tanta celeuma e menor aceitação…acima de tudo por quem não a conhece! Segundo esta teoria não há uma justifcação para a assunção comum de que a evolução está "dirigida" para os humanos, ou que estes são a "expressão suprema da evolução". Mas é impressionante a frequência com que esta assunção presunçosa se manifesta (antropocentrismo rules). De forma objetiva, nua a crua o Universo tem precisamente o que se deve esperar se, no fundo, não há desígnio, nem bem, nem mal, nem nada, senão uma indiferença cega e insondável. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés (não derivamos deles como erradamente se pensa, partilhamos, antes, um antepassado comum), primos mais distantes dos papa formigas, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos...a lista poderia continuar indefinidamente. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma - a evolução é um facto. Não tem uma finalidade nem caminha num sentido de maior perfeição (do ponto de vista evolutivo temos a mesma valide de uma serpente ou de um papa formigas…) O seu caminho é o da adaptação às características ambientais do meio, vigentes em determinado período da história da Terra. Que chatice para o nosso ego e para o nosso antropocentrismo.

Quanto aos 5 valores epistémicos que se presume promoverem o caráter verdadeiro da ciência (Exatidão Preditiva, Coerência interna, Consistência externa, Poder unificador, Fertilidade…e simplicidade), vamos tentar aplicá-los ao “A origem das espécies”:


1 - Exatidão Preditiva 
Avançando a partir do mecanismo central, houve áreas onde a teoria Darwinista foi profética (como por exemplo na distribuição biogeográfica). Segundo ela podemos inferir que os organismos de cada ilha serão aparentados com os do continente próximo.


2 - Coerência interna

A teoria não é incoerente (não encerra contradições). Um dos problemas foi o de tentar aplicar a luta pela sobrevivência (de forma sistemática e a todos os seres vivos) do ponto de vista individual...então e os insetos sociais? (só Hamilton, 100 anos depois, se aproximaria de uma resposta satisfatória).

3 - Consistência externa

Quando Lord Kelvin calculou a idade da Terra em cerca de 25 M.a, a teoria de Darwin vacilou e quase foi ao tapete... mais tarde verificou-se que a idade da Terra seria de 4,6 biliões de anos (tempo esse que já era compatível com a ação da selecção natural). O lado irónico é o facto de serem os Físicos a estarem errados - gloriosamente errados - e não a biologia evolutiva de Darwin.

4 - Poder unificador

Neste aspecto mostra todo o seu valor, unificando numa única, todas as áreas díspares, até então, da Biologia. Como diria mais tarde T. Dobansky: "nada em Biologia faz sentido a não ser à luz da evolução.".

5 - Fertilidade

A teoria encerra em si um elevado potencial, possibilitando novos caminhos de investigação.


Em relação à simplicidade, ela surge, ou não, dependendo do olhar que contempla a obra. Não é fácil assumir esta obra como simples, mas se a olhar-mos pela capacidade do poder unificador, ela é elegantemente simples.

Embora "A origem das espécies" não seja uma obra perfeita, ela representa um salto quântico acima de toda e qualquer coisa (até ela e depois dela) oferecida para explicar as origens e evolução da vida!

terça-feira, novembro 21, 2017

da presunção do Conhecimento

O leitor tem várias crenças. Mas quais das suas crenças são conhecimento, se é que alguma o é? O que é o conhecimento? O conhecimento não é a mera crença. Se o leitor acreditar e afirmar que sabe algo e alguém acreditar e afirmar que sabe o oposto, então pelo menos um de vós está errado. Acreditar tão só em algo, não importa quão ardentemente, não faz disso uma verdade. Para que se saiba algo, não basta somente acreditar nisso; isso também tem de ser verdade! Mas será o conhecimento mera crença verdadeira? Ou será necessário algo mais? São necessário provas adequadas! Uma das coisas que devemos perguntar às autorirades é que provas têm elas das coisas que afirmam saber. E a nós próprios, quando aceitarmos certas pessoas como autoridades, devemos perguntar é que provas mostram que essas pessoas são competentes e fidedignas. Grande parte do conhecimento é adquirido indiretamente. Quem o adquiriu diretamente? Sob que condições foi adquirido? Quão fielmente essa informação lhe foi transmitida? A maior parte das vezes não sabemos responder a estas questões...Navegamos pela vida num oceano de fé.

Acredita nas coisas porque tem uma experiência direta e adequada para assegurar a verdade? Ou acredita nelas com base na palavra de outras autoridades? Deve colocar as questões: Quem são elas? Quem lhe garante que são competentes e fidedignas? e assim por diante...Tais questões podem parecer idiotas , pois colocam em questão aquelas coisas que o leitor pensa que sabe e colocam também em questão aquelas que tinha aceite como autoridade. Quando começar a tomar tais questões seriamente, irá olhar para o conhecimento/autoridade de forma mais crítica e reflexiva. Passará a pensar mais por si mesmo e a apoiar-se menos nos outros para pensarem por si. Isto explica porque razão as autoridades raramente o encorajam a fazê-lo.

Muitos de nós julgamos saber muitas coisas, não apenas acerca de nós mesmos mas também acerca do universo... Julgamos saber distinguir a realidade da fantasia num número surpreendente de matérias...Mas se sabemos quase tudo de forma indireta, como "poderemos" saber que sabemos tanto? Teve, ou está a ter, experiências suficientes para justificar as suas crenças?

Adaptado de "Sabedoria sem respostas" , Daniel Kolak e Raymond Martin

Refugiados climáticos

"Se a Europa acha que tem um problema com a imigração hoje… espere 20 anos”, disse o general Stephen Cheney, do exército dos Estados Unidos, citado pelo jornal britânico The Guardian. “Verão o que acontece quando as mudanças climáticas afastarem as pessoas da África – especialmente do Sahel – e estamos a falar não apenas um ou dois milhões, mas de 10 ou 20 milhões. Eles não vão para a África do Sul, estão a atravessar o Mediterrâneo”, disse ainda.



sábado, outubro 14, 2017

Os 7 saberes da educação do futuro - Edgar Morin

1. Um conhecimento capaz de criticar o próprio conhecimento: As cegueiras do conhecimento são o erro e a ilusão. Cada pessoa está condicionada pelo seu próprio mundo emotivo, pelas suas perceções da realidade, pelo seu mundo cultural e por influências sociológicas. As teorias científicas não estão para sempre imunizadas contra o erro. Resulta difícil entender que tenhamos uma educação que visa transmitir conhecimentos e seja cega quanto ao que é o próprio conhecimento humano. Sem aprofundar sobre os seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que “é conhecer”. Temos, por tanto, que introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

2. Discernir as informações chave, tendo claros os princípios do conhecimento pertinente: Os estudantes têm que saber escolher os pontos chave dentro da abundância atual de informação. É preciso escolher o prioritário e analisar os contextos dos problemas e das informações. O que antigamente, utilizando uma bela metáfora, entendíamos como “saber tirar a agulha do palheiro”. Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais ou locais. A supremacia do conhecimento, fragmentado de acordo com as disciplinas, impede frequentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos no seu contexto, na sua complexidade e no seu conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo. O que pode fazer-se baseando-se sempre no método científico de pesquisa, nas relações causa - efeito e no uso nas aulas do método didático integral da globalização e interdisciplinar.

3. Ensinar a condição humana: Reconhecer a nossa humanidade comum em que vivemos. E, ao mesmo tempo, a diversidade da nossa condição humana. A humanidade é una e diversa. Compreender que o “humano” é sempre físico, biológico, psicológico, social e cultural, e essa unidade complexa da natureza humana é totalmente “desintegrada”, não entendida, porque foi artificialmente dividida ou desligada, na educação atual, pelas várias disciplinas. Tomando isto como base, devem levar-se os estudantes a compreender a unidade e a complexidade do ser humano. Utilizando a Didáctica interdisciplinar.

4.Ensinar a identidade terrena: A revolução tecnológica permitiu voltar a unir o que antes sempre esteve disperso. A pátria comum é a Terra, por isso temos que lograr um sentimento de pertença à mesma, embora existam diferenças essenciais. É necessário ensinar aos jovens alunos a história da era planetária, iniciada com as navegações portuguesas, seguidas das castelhanas, francesas, inglesas e holandesas, que puseram em comunicação todos os continentes a partir do século XVI. Para o bem e para o mal, o mundo interligou-se. A problemática atual é planetária, porque todos os seres humanos têm problemas e um destino comum.

5.Enfrentar as incertezas: O século XX derrubou a preditividade do futuro. Caíram impérios que pensavam perpetuar-se. A educação deve ir unida à incerteza e às reações e ações impredizíveis. Temos que ensinar aos estudantes a estratégia que leve a pensar o imprevisto, pensar a incerteza, intervir no futuro através do presente, com as informações obtidas no tempo e a tempo. É preciso aprender a navegar num oceano de incertezas. O futuro é aberto e incerto, mas temos dados para, pelo menos, tentar minorar as dificuldades.

6. Ensinar a compreensão: Devemos melhorar a nossa compreensão dos demais, o respeito pelas ideias dos outros e os seus modelos de vida, sempre e quando não atentem contra a dignidade humana. Há que entender os outros códigos éticos, os ritos e costumes. Não marcar ninguém com uma etiqueta. Evitar o egoísmo e o etnocentrismo. Compreender que a compreensão é meio e fim da comunicação humana mas, infelizmente, a educação para a compreensão não se faz em quase nenhum lugar. Precisamos de compreensão mútua. Precisamos de estudar a incompreensão, o racismo, a xenofobia, o dogmatismo. Para isso temos que desenvolver em todas as aulas e estabelecimentos de ensino de todos os níveis a “Educação para a Paz e a Não Violência”.
 

7. A ética do género humano: Ensinar a verdadeira democracia é um dever ético. Mas também necessita diversidade e antagonismos: a democracia não consiste numa ditadura da maioria. Os nossos estudantes têm que compreender a natureza “trinitária” do ser humano: indivíduo-sociedade-espécie. A ética indivíduo-espécie consiste no controlo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, por meio de uma democracia autêntica. A ética indivíduo-espécie implica, no presente século, a construção e efetivação da cidadania terrestre ou planetária.

sexta-feira, junho 02, 2017

Humanidade(s) V - o complexo R

O complexo R desempenha um papel importante no comportamento agressivo, na demarcação do território, no ritual e no estabelecimento de hierarquias sociais. Isto parece caracterizar grande parte do comportamento burocrático e político dos seres humanos. Não quer dizer que o neocórtex não esteja presente numa reunião política, mas é surpreendente quanto do nosso comportamento atual - independentemente daquilo que digamos ou pensamos - pode ser descrito em termos reptilianos. Não é por acaso que se fala em assassinos a "sangue frio", assim como devemos relembrar o conselho de Maquiavel ao seu príncipe - conscientemente aceitar o animal. Se o complexo R é assim tão importante significa que não há esperança para o futuro da humanidade? A História está cheia de exemplos de que os humanos são capazes de resistir à tendência para cederem aos impulsos do cérebro reptiliano. De qualquer forma não convém ignorar a componente reptiliana da natureza humana (relembrar o holocausto e outros genocídios...), pelo contrário permite-nos compreender melhor o que são os seres humanos. Por exemplo: será que os rituais de muitas doenças psicóticas não serão o resultado da hiperatividade de algum local do complexo R? Ou será o resultado de uma deficiência ao nível do neocórtex que teria como função reprimir ou dominar o complexo R?

Adaptado de Os dragões do éden, Carl Sagan

sexta-feira, maio 12, 2017

Desacreditar a Evolução

Uma verdadeira prova contra a evolução, e realmente muito forte, seria a descoberta nem que fosse de um só fóssil no estrato geológico errado. Quando pediram a J. B. S. Haldane uma observação que refutasse a evolução ele deu esta resposta que ficou famosa: "coelhos fósseis no Pré-Câmbrico!". Nunca se encontraram esses fósseis nem outros verdadeiramente anacrónicos de qualquer tipo. Todos os fósseis que temos, surgem, sem uma única excepção válida na sequência temporal correcta. A evolução poderia ser facilmente refutada se um só fóssil surgisse no estrato errado. A evolução tem passado com distinção neste teste. Os cépticos deviam andar a escarafunchar nas rochas, numa procura de fósseis anacrónicos...talvez encontrem algum!
Adaptado de O espectáculo da vida, Richard Dawkins

sábado, abril 29, 2017

Humanidade(s) IV - O aparecimento da consciência

Imaginemos os primeiros humanos...o que procuravam? Bem, em grande medida o mesmo que procuramos hoje: alimento, sexo, abrigo, segurança, conforto e um certo grau de dignidade. Feche os olhos por um instante e imagine esses antepassados remotos, talvez antes do aparecimento da linguagem, mas atentos e conscientes, já dotados de emoções e sentimentos, com a noção do que é estar triste e alegre, de sentir prazer ou sentir dor. Como expressavam esses estados? Talvez emitissem sons vocais  o que terá funcionado como que uma pressão seletiva sobre o cérebro, no sentido do desenvolvimento da linguagem.
Os estudos do Séc. XX sobre tribos isoladas confirmaram que também eram curiosos quanto a si próprios e contavam narrativas acerca da sua origem e do seu destino. Os primeiros humanos sentiriam afeição e atração pelos seus semelhantes e teriam conhecido a mágoa que advém da quebra desses laços. Teriam igualmente testemunhado momentos de alegria e de satisfação, êxito na caça, no acasalamento, na guerra... Esta descoberta sistemática do drama da existência humana só foi possível após o desenvolvimento pleno da consciência humana - uma mente com um "eu" autobiográfico.
Foi essa descoberta que terá estado na origem dos mitos para explicar a condição humana e seus processos: elaboração de convenções e regras sociais, início da moralidade, criação de narrativas religiosas a partir de mitos e elaboração de leis e regras. A elaboração de regras morais e de leis e o desenvolvimento de um sistema de justiça foi uma resposta à deteção de comportamentos instintivos que fazem perigar os indivíduos de um grupo.
Neste contexto não deve surpreender que as narrativas socioculturais fossem  buscar a sua autoridade aos seres míticos que se imaginava terem mais poder e conhecimento do que os humanos. Eram seres cuja existência explicava todo o tipo de problemas, facultavam o auxílio e podiam modificar o futuro...basta lembrar a profusão de deuses do antigo Egito, Mesapotâmia, Grécia, Roma e mesmo presentemente para se perceber esta visão...
 
Adaptado de O livro da Consciência, António Damásio

 

segunda-feira, abril 24, 2017

Humanidades (s) III - A origem do Homem



Fonte: A História do Homem, Robin Dunbar
Durante algum tempo fomos colocados numa posição solitária entre os símios. Esta visão alterou-se há cerca de uma década, em que se concluiu que os humanos partilham um ancestral comum mais recente com os chimpanzés do que qualquer dos dois com os gorilas ou os orangotangos, por exemplo. As diferenças entre nós e o resto da criação foram reforçadas pela tradição judaico-cristã (ainda que não em todas as tradições religiosas) pela crença que nós, humanos, éramos de algum modo especiais aos olhos do todo-poderoso.Com a evolução surgiu outra perspectiva: os humanos não são o pináculo da evolução, pois todas as espécies que sobrevivem são igualmente boas, na medida em que estão bem adapatadas (caso contrário, ter-se-iam extinguido). Não somos, tal como durante tanto tempo acreditamos, o produto de uma criação divina especial. Somos apenas outro símio (um pouco mais inteligente...às vezes, digo eu).

Adaptado de A História do Homem, Robin Dunbar

Genealogia dos Hominídeos
Retirado de O Colar do Neandertal, Juan Luis Arsuaga


sábado, abril 22, 2017

Humanidade(s) II - A origem do Homem



Uma vez que somos humanos é impossível não nos focarmos nas nossas origens. Aqui reside o perigo. Os humanos não são o auge da evolução. Tudo aquilo que antes se passou não foi um prelúdio para o aparecimento dos seres humanos, que chegaram, aparentemente, com grande pompa. Convém sermos humildes, pois a evolução não é teológica ou movida por objetivos. Apenas é! Durante o Paleocénico, os mais proximos antepassados dos humanos eram pequenos animais magricelas parecidos com esquilos, de passo rápido e nervoso. Não estávamos em presença  de nenhum sinal de génio latente ou de um futuro ser inteligente (às vezes pouco, digo eu...) dominador do planeta. Esta é uma viagem ao interior de nós próprios. Para entender o que é ser humano, temos de entender a nossa mente. É aí, na nossa capacidade de refletir sobre nós mesmos e sobre o nosso relacionamento com o mundo que parecem residir as diferenças entre nós e o resto dos seres vivos. Os nossos atríbutos físicos e grande parte dos nossos comportamentos não são excecionais.O que nos distingue é a vida mental e a capacidade de imaginar. A nossa história tem sido longa, mas não existiu uma sequência precisa de mudanças que conduziram inexoravelmente dos símios aos humanos com alguma inevitabilidade divina; estamos cá, mas podíamos não estar...Existiu apenas o eterno caos da história evolucionária.
Não existe um ponto na nossa história para o qual possamos apontar com segurança e dizer: "Ah, e aqui tornámo-nos humanos". Talvez fosse melhor ver a nossa história como uma história de crescentes graus de humanidade. Estivessem os neandertais, os erectus e os habilis ainda vivos e o fosso entre nós e os outros grandes símios seria menos evidente. O facto de já não existirem, levou a que exagerássemos a nossa aparente singularidade e tem sido responsável por nos dar uma falsa sensação da nossa própria importância. Isto acaba por resultar na tendência para antromorfizar tudo o que nos rodeia; temos que nos defender contra este estigma quando tentamos compreender o mundo ao nosso redor.
Há cerca de 40 mil anos haveria de surgir na Europa uma subespécie de Homo sapiens, vinda de África tal como a de Neandertal. Deu-se-lhe o nome de Homos sapiens sapiens ou Homem de Cro-Magnon. Por razões pouco claras o Neandertal acabou por se extinguir. Alguns investigadores consideram a sua extinção, quando da chegada à Europa dos Cro-Magnon. Estes já tinham uma crença religiosa que lhes proporcionava a possibilidade de agir em grupos maiores, com mais união e motivação, ao confrontar-se ecologicamente com o primeiro. Desde essa data até aos dias de hoje só existe uma única espécie de Homem, mas entre os dois milhões e os vinte e oito mil anos atrás, deambularam pela Terra entre duas a cinco espécies de seres humanos...
 














Obras consultadas:

A Educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida
A História do Homem, Robin Dunbar
Breve história da vida, Michael Benton