domingo, novembro 26, 2017

Teoria da evolução


O (neo)darwinismo parece necessitar mais de ser defendido do que outras verdades, identicamente estabelecidas, de outros ramos da ciência. Muitos de nós não aprendemos a teoria quântica, ou a teoria da relatividade restrita e geral de Einstein, mas isso, por si só, não nos leva a opor-nos a estas teorias! Porquê?

Ao contrário das outras teorias mencionadas - teoria quântica, ou a teoria da relatividade restrita e geral, a teoria da evolução mexe com as nossas origens de daí causar tanta celeuma e menor aceitação…acima de tudo por quem não a conhece! Segundo esta teoria não há uma justifcação para a assunção comum de que a evolução está "dirigida" para os humanos, ou que estes são a "expressão suprema da evolução". Mas é impressionante a frequência com que esta assunção presunçosa se manifesta (antropocentrismo rules). De forma objetiva, nua a crua o Universo tem precisamente o que se deve esperar se, no fundo, não há desígnio, nem bem, nem mal, nem nada, senão uma indiferença cega e insondável. É uma verdade inquestionável que somos primos dos chimpanzés (não derivamos deles como erradamente se pensa, partilhamos, antes, um antepassado comum), primos mais distantes dos papa formigas, primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos...a lista poderia continuar indefinidamente. Ora isto não tem de ser verdade. Não se trata de uma verdade evidente, tautológica, óbvia e houve tempos em que a maior parte das pessoas, mesmo as instruídas, pensava que não era. Não tem de ser verdade, mas é. Sabemos isso porque uma vaga crescente de provas o confirma - a evolução é um facto. Não tem uma finalidade nem caminha num sentido de maior perfeição (do ponto de vista evolutivo temos a mesma valide de uma serpente ou de um papa formigas…) O seu caminho é o da adaptação às características ambientais do meio, vigentes em determinado período da história da Terra. Que chatice para o nosso ego e para o nosso antropocentrismo.

Quanto aos 5 valores epistémicos que se presume promoverem o caráter verdadeiro da ciência (Exatidão Preditiva, Coerência interna, Consistência externa, Poder unificador, Fertilidade…e simplicidade), vamos tentar aplicá-los ao “A origem das espécies”:


1 - Exatidão Preditiva 
Avançando a partir do mecanismo central, houve áreas onde a teoria Darwinista foi profética (como por exemplo na distribuição biogeográfica). Segundo ela podemos inferir que os organismos de cada ilha serão aparentados com os do continente próximo.


2 - Coerência interna

A teoria não é incoerente (não encerra contradições). Um dos problemas foi o de tentar aplicar a luta pela sobrevivência (de forma sistemática e a todos os seres vivos) do ponto de vista individual...então e os insetos sociais? (só Hamilton, 100 anos depois, se aproximaria de uma resposta satisfatória).

3 - Consistência externa

Quando Lord Kelvin calculou a idade da Terra em cerca de 25 M.a, a teoria de Darwin vacilou e quase foi ao tapete... mais tarde verificou-se que a idade da Terra seria de 4,6 biliões de anos (tempo esse que já era compatível com a ação da selecção natural). O lado irónico é o facto de serem os Físicos a estarem errados - gloriosamente errados - e não a biologia evolutiva de Darwin.

4 - Poder unificador

Neste aspecto mostra todo o seu valor, unificando numa única, todas as áreas díspares, até então, da Biologia. Como diria mais tarde T. Dobansky: "nada em Biologia faz sentido a não ser à luz da evolução.".

5 - Fertilidade

A teoria encerra em si um elevado potencial, possibilitando novos caminhos de investigação.


Em relação à simplicidade, ela surge, ou não, dependendo do olhar que contempla a obra. Não é fácil assumir esta obra como simples, mas se a olhar-mos pela capacidade do poder unificador, ela é elegantemente simples.

Embora "A origem das espécies" não seja uma obra perfeita, ela representa um salto quântico acima de toda e qualquer coisa (até ela e depois dela) oferecida para explicar as origens e evolução da vida!

terça-feira, novembro 21, 2017

da presunção do Conhecimento

O leitor tem várias crenças. Mas quais das suas crenças são conhecimento, se é que alguma o é? O que é o conhecimento? O conhecimento não é a mera crença. Se o leitor acreditar e afirmar que sabe algo e alguém acreditar e afirmar que sabe o oposto, então pelo menos um de vós está errado. Acreditar tão só em algo, não importa quão ardentemente, não faz disso uma verdade. Para que se saiba algo, não basta somente acreditar nisso; isso também tem de ser verdade! Mas será o conhecimento mera crença verdadeira? Ou será necessário algo mais? São necessário provas adequadas! Uma das coisas que devemos perguntar às autorirades é que provas têm elas das coisas que afirmam saber. E a nós próprios, quando aceitarmos certas pessoas como autoridades, devemos perguntar é que provas mostram que essas pessoas são competentes e fidedignas. Grande parte do conhecimento é adquirido indiretamente. Quem o adquiriu diretamente? Sob que condições foi adquirido? Quão fielmente essa informação lhe foi transmitida? A maior parte das vezes não sabemos responder a estas questões...Navegamos pela vida num oceano de fé.

Acredita nas coisas porque tem uma experiência direta e adequada para assegurar a verdade? Ou acredita nelas com base na palavra de outras autoridades? Deve colocar as questões: Quem são elas? Quem lhe garante que são competentes e fidedignas? e assim por diante...Tais questões podem parecer idiotas , pois colocam em questão aquelas coisas que o leitor pensa que sabe e colocam também em questão aquelas que tinha aceite como autoridade. Quando começar a tomar tais questões seriamente, irá olhar para o conhecimento/autoridade de forma mais crítica e reflexiva. Passará a pensar mais por si mesmo e a apoiar-se menos nos outros para pensarem por si. Isto explica porque razão as autoridades raramente o encorajam a fazê-lo.

Muitos de nós julgamos saber muitas coisas, não apenas acerca de nós mesmos mas também acerca do universo... Julgamos saber distinguir a realidade da fantasia num número surpreendente de matérias...Mas se sabemos quase tudo de forma indireta, como "poderemos" saber que sabemos tanto? Teve, ou está a ter, experiências suficientes para justificar as suas crenças?

Adaptado de "Sabedoria sem respostas" , Daniel Kolak e Raymond Martin

Refugiados climáticos

"Se a Europa acha que tem um problema com a imigração hoje… espere 20 anos”, disse o general Stephen Cheney, do exército dos Estados Unidos, citado pelo jornal britânico The Guardian. “Verão o que acontece quando as mudanças climáticas afastarem as pessoas da África – especialmente do Sahel – e estamos a falar não apenas um ou dois milhões, mas de 10 ou 20 milhões. Eles não vão para a África do Sul, estão a atravessar o Mediterrâneo”, disse ainda.



sábado, outubro 14, 2017

Os 7 saberes da educação do futuro - Edgar Morin

1. Um conhecimento capaz de criticar o próprio conhecimento: As cegueiras do conhecimento são o erro e a ilusão. Cada pessoa está condicionada pelo seu próprio mundo emotivo, pelas suas perceções da realidade, pelo seu mundo cultural e por influências sociológicas. As teorias científicas não estão para sempre imunizadas contra o erro. Resulta difícil entender que tenhamos uma educação que visa transmitir conhecimentos e seja cega quanto ao que é o próprio conhecimento humano. Sem aprofundar sobre os seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que “é conhecer”. Temos, por tanto, que introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

2. Discernir as informações chave, tendo claros os princípios do conhecimento pertinente: Os estudantes têm que saber escolher os pontos chave dentro da abundância atual de informação. É preciso escolher o prioritário e analisar os contextos dos problemas e das informações. O que antigamente, utilizando uma bela metáfora, entendíamos como “saber tirar a agulha do palheiro”. Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais ou locais. A supremacia do conhecimento, fragmentado de acordo com as disciplinas, impede frequentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos no seu contexto, na sua complexidade e no seu conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo. O que pode fazer-se baseando-se sempre no método científico de pesquisa, nas relações causa - efeito e no uso nas aulas do método didático integral da globalização e interdisciplinar.

3. Ensinar a condição humana: Reconhecer a nossa humanidade comum em que vivemos. E, ao mesmo tempo, a diversidade da nossa condição humana. A humanidade é una e diversa. Compreender que o “humano” é sempre físico, biológico, psicológico, social e cultural, e essa unidade complexa da natureza humana é totalmente “desintegrada”, não entendida, porque foi artificialmente dividida ou desligada, na educação atual, pelas várias disciplinas. Tomando isto como base, devem levar-se os estudantes a compreender a unidade e a complexidade do ser humano. Utilizando a Didáctica interdisciplinar.

4.Ensinar a identidade terrena: A revolução tecnológica permitiu voltar a unir o que antes sempre esteve disperso. A pátria comum é a Terra, por isso temos que lograr um sentimento de pertença à mesma, embora existam diferenças essenciais. É necessário ensinar aos jovens alunos a história da era planetária, iniciada com as navegações portuguesas, seguidas das castelhanas, francesas, inglesas e holandesas, que puseram em comunicação todos os continentes a partir do século XVI. Para o bem e para o mal, o mundo interligou-se. A problemática atual é planetária, porque todos os seres humanos têm problemas e um destino comum.

5.Enfrentar as incertezas: O século XX derrubou a preditividade do futuro. Caíram impérios que pensavam perpetuar-se. A educação deve ir unida à incerteza e às reações e ações impredizíveis. Temos que ensinar aos estudantes a estratégia que leve a pensar o imprevisto, pensar a incerteza, intervir no futuro através do presente, com as informações obtidas no tempo e a tempo. É preciso aprender a navegar num oceano de incertezas. O futuro é aberto e incerto, mas temos dados para, pelo menos, tentar minorar as dificuldades.

6. Ensinar a compreensão: Devemos melhorar a nossa compreensão dos demais, o respeito pelas ideias dos outros e os seus modelos de vida, sempre e quando não atentem contra a dignidade humana. Há que entender os outros códigos éticos, os ritos e costumes. Não marcar ninguém com uma etiqueta. Evitar o egoísmo e o etnocentrismo. Compreender que a compreensão é meio e fim da comunicação humana mas, infelizmente, a educação para a compreensão não se faz em quase nenhum lugar. Precisamos de compreensão mútua. Precisamos de estudar a incompreensão, o racismo, a xenofobia, o dogmatismo. Para isso temos que desenvolver em todas as aulas e estabelecimentos de ensino de todos os níveis a “Educação para a Paz e a Não Violência”.
 

7. A ética do género humano: Ensinar a verdadeira democracia é um dever ético. Mas também necessita diversidade e antagonismos: a democracia não consiste numa ditadura da maioria. Os nossos estudantes têm que compreender a natureza “trinitária” do ser humano: indivíduo-sociedade-espécie. A ética indivíduo-espécie consiste no controlo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, por meio de uma democracia autêntica. A ética indivíduo-espécie implica, no presente século, a construção e efetivação da cidadania terrestre ou planetária.

sexta-feira, junho 02, 2017

Humanidade(s) V - o complexo R

O complexo R desempenha um papel importante no comportamento agressivo, na demarcação do território, no ritual e no estabelecimento de hierarquias sociais. Isto parece caracterizar grande parte do comportamento burocrático e político dos seres humanos. Não quer dizer que o neocórtex não esteja presente numa reunião política, mas é surpreendente quanto do nosso comportamento atual - independentemente daquilo que digamos ou pensamos - pode ser descrito em termos reptilianos. Não é por acaso que se fala em assassinos a "sangue frio", assim como devemos relembrar o conselho de Maquiavel ao seu príncipe - conscientemente aceitar o animal. Se o complexo R é assim tão importante significa que não há esperança para o futuro da humanidade? A História está cheia de exemplos de que os humanos são capazes de resistir à tendência para cederem aos impulsos do cérebro reptiliano. De qualquer forma não convém ignorar a componente reptiliana da natureza humana (relembrar o holocausto e outros genocídios...), pelo contrário permite-nos compreender melhor o que são os seres humanos. Por exemplo: será que os rituais de muitas doenças psicóticas não serão o resultado da hiperatividade de algum local do complexo R? Ou será o resultado de uma deficiência ao nível do neocórtex que teria como função reprimir ou dominar o complexo R?

Adaptado de Os dragões do éden, Carl Sagan

sexta-feira, maio 12, 2017

Desacreditar a Evolução

Uma verdadeira prova contra a evolução, e realmente muito forte, seria a descoberta nem que fosse de um só fóssil no estrato geológico errado. Quando pediram a J. B. S. Haldane uma observação que refutasse a evolução ele deu esta resposta que ficou famosa: "coelhos fósseis no Pré-Câmbrico!". Nunca se encontraram esses fósseis nem outros verdadeiramente anacrónicos de qualquer tipo. Todos os fósseis que temos, surgem, sem uma única excepção válida na sequência temporal correcta. A evolução poderia ser facilmente refutada se um só fóssil surgisse no estrato errado. A evolução tem passado com distinção neste teste. Os cépticos deviam andar a escarafunchar nas rochas, numa procura de fósseis anacrónicos...talvez encontrem algum!
Adaptado de O espectáculo da vida, Richard Dawkins

sábado, abril 29, 2017

Humanidade(s) IV - O aparecimento da consciência

Imaginemos os primeiros humanos...o que procuravam? Bem, em grande medida o mesmo que procuramos hoje: alimento, sexo, abrigo, segurança, conforto e um certo grau de dignidade. Feche os olhos por um instante e imagine esses antepassados remotos, talvez antes do aparecimento da linguagem, mas atentos e conscientes, já dotados de emoções e sentimentos, com a noção do que é estar triste e alegre, de sentir prazer ou sentir dor. Como expressavam esses estados? Talvez emitissem sons vocais  o que terá funcionado como que uma pressão seletiva sobre o cérebro, no sentido do desenvolvimento da linguagem.
Os estudos do Séc. XX sobre tribos isoladas confirmaram que também eram curiosos quanto a si próprios e contavam narrativas acerca da sua origem e do seu destino. Os primeiros humanos sentiriam afeição e atração pelos seus semelhantes e teriam conhecido a mágoa que advém da quebra desses laços. Teriam igualmente testemunhado momentos de alegria e de satisfação, êxito na caça, no acasalamento, na guerra... Esta descoberta sistemática do drama da existência humana só foi possível após o desenvolvimento pleno da consciência humana - uma mente com um "eu" autobiográfico.
Foi essa descoberta que terá estado na origem dos mitos para explicar a condição humana e seus processos: elaboração de convenções e regras sociais, início da moralidade, criação de narrativas religiosas a partir de mitos e elaboração de leis e regras. A elaboração de regras morais e de leis e o desenvolvimento de um sistema de justiça foi uma resposta à deteção de comportamentos instintivos que fazem perigar os indivíduos de um grupo.
Neste contexto não deve surpreender que as narrativas socioculturais fossem  buscar a sua autoridade aos seres míticos que se imaginava terem mais poder e conhecimento do que os humanos. Eram seres cuja existência explicava todo o tipo de problemas, facultavam o auxílio e podiam modificar o futuro...basta lembrar a profusão de deuses do antigo Egito, Mesapotâmia, Grécia, Roma e mesmo presentemente para se perceber esta visão...
 
Adaptado de O livro da Consciência, António Damásio

 

segunda-feira, abril 24, 2017

Humanidades (s) III - A origem do Homem



Fonte: A História do Homem, Robin Dunbar
Durante algum tempo fomos colocados numa posição solitária entre os símios. Esta visão alterou-se há cerca de uma década, em que se concluiu que os humanos partilham um ancestral comum mais recente com os chimpanzés do que qualquer dos dois com os gorilas ou os orangotangos, por exemplo. As diferenças entre nós e o resto da criação foram reforçadas pela tradição judaico-cristã (ainda que não em todas as tradições religiosas) pela crença que nós, humanos, éramos de algum modo especiais aos olhos do todo-poderoso.Com a evolução surgiu outra perspectiva: os humanos não são o pináculo da evolução, pois todas as espécies que sobrevivem são igualmente boas, na medida em que estão bem adapatadas (caso contrário, ter-se-iam extinguido). Não somos, tal como durante tanto tempo acreditamos, o produto de uma criação divina especial. Somos apenas outro símio (um pouco mais inteligente...às vezes, digo eu).

Adaptado de A História do Homem, Robin Dunbar

Genealogia dos Hominídeos
Retirado de O Colar do Neandertal, Juan Luis Arsuaga


sábado, abril 22, 2017

Humanidade(s) II - A origem do Homem



Uma vez que somos humanos é impossível não nos focarmos nas nossas origens. Aqui reside o perigo. Os humanos não são o auge da evolução. Tudo aquilo que antes se passou não foi um prelúdio para o aparecimento dos seres humanos, que chegaram, aparentemente, com grande pompa. Convém sermos humildes, pois a evolução não é teológica ou movida por objetivos. Apenas é! Durante o Paleocénico, os mais proximos antepassados dos humanos eram pequenos animais magricelas parecidos com esquilos, de passo rápido e nervoso. Não estávamos em presença  de nenhum sinal de génio latente ou de um futuro ser inteligente (às vezes pouco, digo eu...) dominador do planeta. Esta é uma viagem ao interior de nós próprios. Para entender o que é ser humano, temos de entender a nossa mente. É aí, na nossa capacidade de refletir sobre nós mesmos e sobre o nosso relacionamento com o mundo que parecem residir as diferenças entre nós e o resto dos seres vivos. Os nossos atríbutos físicos e grande parte dos nossos comportamentos não são excecionais.O que nos distingue é a vida mental e a capacidade de imaginar. A nossa história tem sido longa, mas não existiu uma sequência precisa de mudanças que conduziram inexoravelmente dos símios aos humanos com alguma inevitabilidade divina; estamos cá, mas podíamos não estar...Existiu apenas o eterno caos da história evolucionária.
Não existe um ponto na nossa história para o qual possamos apontar com segurança e dizer: "Ah, e aqui tornámo-nos humanos". Talvez fosse melhor ver a nossa história como uma história de crescentes graus de humanidade. Estivessem os neandertais, os erectus e os habilis ainda vivos e o fosso entre nós e os outros grandes símios seria menos evidente. O facto de já não existirem, levou a que exagerássemos a nossa aparente singularidade e tem sido responsável por nos dar uma falsa sensação da nossa própria importância. Isto acaba por resultar na tendência para antromorfizar tudo o que nos rodeia; temos que nos defender contra este estigma quando tentamos compreender o mundo ao nosso redor.
Há cerca de 40 mil anos haveria de surgir na Europa uma subespécie de Homo sapiens, vinda de África tal como a de Neandertal. Deu-se-lhe o nome de Homos sapiens sapiens ou Homem de Cro-Magnon. Por razões pouco claras o Neandertal acabou por se extinguir. Alguns investigadores consideram a sua extinção, quando da chegada à Europa dos Cro-Magnon. Estes já tinham uma crença religiosa que lhes proporcionava a possibilidade de agir em grupos maiores, com mais união e motivação, ao confrontar-se ecologicamente com o primeiro. Desde essa data até aos dias de hoje só existe uma única espécie de Homem, mas entre os dois milhões e os vinte e oito mil anos atrás, deambularam pela Terra entre duas a cinco espécies de seres humanos...
 














Obras consultadas:

A Educação dos genes, Luís Bigotte de Almeida
A História do Homem, Robin Dunbar
Breve história da vida, Michael Benton

domingo, fevereiro 12, 2017

Humanidade(s) I - A origem do Homem

Tribo atual das Ilhas Vanuatu
"Lamento pensar que muitas pessoas não sabem que o Homem descende de uma forma de organização inferior, mas "poucos" terão dúvidas que descendemos de bárbaros. Nunca poderei esquecer a surpresa que senti ao assistir pela primeira vez a uma festa de fuegianos numa região do litoral selvagem e escarpada (atual terra do fogo, na América do Sul), pela reflexão que de súbito me veio à mente: eram assim os nossos antepassados. Estes Homens estavam completamente nus e cobertos de pinturas, com os cabelos compridos, as bocas a escumar e uma expressão selvagem e desconfiada. Por meu lado, preferia descender de um macaquinho, do que de um selvagem que se deleita a torturar os inimigos, oferece aos deuses sacrifícios sangrentos, pratica o infantícidio, trata a sua mulher como escrava e está imbuído das superstições mais grosseiras. Apesar de todas a suas nobres qualidades, o Homem ainda tem impresso na sua consciência física o cunho indelével da sua origem inferior."
 
Adaptado de A descendência do Homem, Charles Darwin
 

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.


José Saramago, "Deste mundo e do outro"



Crónica publicada por Saramago em 14 de março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”. A velha senhora era analfabeta. Trinta anos depois da publicação da carta, o neto dela receberia o Prémio Nobel de Literatura.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Humanidade(s) - A origem do Homem

Seria Deus, por acaso, um criador tão parco em imaginação que só foi capaz de inventar um reduzido número de modelos a partir dos quais se viu obrigado a desenvolver variantes? A teoria da evolução dá uma resposta diferente a este problema: as espécies parecidas descendem de um antepassado comum próximo no tempo, ou seja, são estreitamente aparentadas. Será possível, afinal, que sejamos tão diferentes dos chimpanzés? Na verdade só nos diferenciamos deles 1%, dos nossos 30 000 genes. Mais ainda, estima-se que não serão  mais de 100, quiçá 50, os genes responsáveis pelas diferenças cognitivas entre uns e outros. Esta pequena alteração genética converteu-nos numa espécie com propriedades mentais únicas (às vezes nem tanto, digo eu...). 

 Adaptado de O colar do Neandertal, Juan Luís Arsuaga


A fusão dos cromossomas ancestrais deixaram vestígios 
de telómeros e um centrómero vestigial
Os chimpanzés, ao contrário dos humanos que têm 23 pares, têm 24 pares de cromossomas. A razão, que imediatamente se torna evidente, não consiste em ter desaparecido em nós um par de cromossomas, mas sim em dois dos cromossomas dos primatas se terem fundido. Pensa-se que o cromossoma 2, o segundo maior dos cromossomas humanos, se tenha formado a partir da fusão de dois cromossomas de médias dimensões dos grandes primatas, tal como pode ser visto a partir do padrão de bandas pretas nos respectivos cromossomas. O Papa João Paulo II, na sua mensagem à Academia Pontifícia das Ciências de 22 de Outubro de 1996, argumentou que entre os grandes primatas ancestrais e os seres humanos modernos existia uma «descontinuidade ontológica» - um ponto onde Deus injectou a alma humana numa linhagem animal. Deste modo, a Igreja pode reconciliar-se com a teoria evolutiva. 

...Talvez o salto ontológico tenha ocorrido quando os dois cromossomas dos grandes primatas se fundiram e os genes da alma se encontrem sensivelmente a meio do cromossoma 2... :) 

Presentemente o cromossoma 2 é amplamente aceite como resultado de uma fusão telómero - telómero entre dois cromossomos ancestrais. As evidências disso incluem:
  • A correspondência do cromossoma 2 com dois cromossomas dos símios. O parente mais próximo do homem, o chimpanzé, tem sequências de DNA quase totalmente idênticas ao cromossoma 2 humano porém em dois cromossomos separados. O mesmo se verifica em relação ao gorila e ao orangotango.
  • A presença de um centrómero vestigial. Normalmente um cromossoma possui apenas um centrómero mas no cromossomo 2 encontram-se vestígios de um segundo.
  • A presença de telómeros vestigiais. Normalmente são encontrados apenas nos finais dos cromossomas, mas no cromossoma 2 encontramos sequências de telómeros a meio.  

domingo, janeiro 22, 2017

Eratóstenes - afinal a Terra é redonda!

Aquando da sua diretoria da grande biblioteca de Alexandria (200 a.C), leu num papiro que no posto fronteiriço sul de Siena (perto da 1ª catarata do Nilo), ao meio dia de 21 de Junho, varas verticais não faziam sombra. Ao mesmo tempo podia ver-se o reflexo do Sol na água no fundo de um poço (sinal de que a luz solar incidia totalmente na vertical sobre a Terra).

Teve então a presença de espírito para fazer a experiência seguinte:

Verificar se em Alexandria (no mesmo dia do ano) varas verticais davam sombra... descobriu que sim! Como era possível, pensou Eratóstenes - seria mais um capricho de Zeus! - se a Terra era plana?

Na sua opinião, tal só era possível se a superfície da Terra fosse curva e então a distância entre Siena e Alexandria seria de 7º ao longo da superfície (curva) terrestre.


  • Se as varas se estendessem até ao centro da Terra, intercetar-se-iam num ângulo de 7º, o que é cerca de 1/50 de 360º, a circunferência total da Terra;
  • Eratóstenes sabia que a distância entre Alexandria e Siena era de cerca de cinco mil estádios (800 Km).
  • Logo, multiplicando 800 Km x 50 (nº de vezes para perfazer o círculo) = 40 000 Km; essa devia ser, portanto, a circunferência da Terra. Apenas errou por 76 km!
Os únicos instrumentos que Eratóstenes dispunha eram varas, olhos, inteligência e gosto pela experiência. Com eles calculou o diâmetro da Terra com baixa margem de erro há 2200 anos atrás! Extraordinário...


Não admira que os seus contemporâneos lhe chamassem de "Beta", tal a sua grandeza.
 

domingo, janeiro 15, 2017

Nervo laríngeo - desígnio inteligente ou evolução?



Este nervo resulta da ramificação de um nervo craniano que provém diretamente do cérebro em vez da espinal medula. O nervo craniano, o vago, tem vários ramos, 2 dos quais dirigem-se ao coração e 2 laterais à laringe. Em ambos os lados do pescoço, um dos ramos do nervo laríngeo dirige-se à laringe, seguindo um percurso direto tal como seria escolhido por um projetista. O outro dirige-se à laringe mas realiza um desvio surpreendente. Mergulha no tórax, circunda uma das principais artérias que sai do coração e depois regressa ao pescoço para terminar a viagem. Enquanto resultado de um projeto, este nervo seria um disparate. Do
ponto de vista evolutivo faz todo o sentido, mas para o compreender precisamos de recuar ao tempo em que os nossos antepassados eram peixes. Os embriões humanos com cinco semanas assemelham-se a peixes com brânquias. Num embrião humano com vinte e seis dias vemos que o abastecimento sanguíneo às "brânquias" se assemelha fortemente ao abastecimento sanguíneo às brânquias de um peixe. Estas ramificações procuram os seus órgãos-alvo, as brânquias, pelo caminho mais direto e lógico. Durante a evolução dos mamíferos, contudo, o pescoço cresceu (os peixes não o têm) e as brânquias desapareceram, evoluindo para tiróide, paratiróide e laringe. Estes órgãos herdaram o abastecimento que outrora servia as brânquias. Durante a evolução dos mamíferos os nervos e vasos sanguíneos foram puxados e esticados em direções diversas. No tubarão esse nervo laríngeo não apresenta desvio, já na girafa (que melhor exemplo se poderia arranjar para esta situação?!), este nervo tem um desvio de 4 metros. Na sua jornada descendente, o nervo passa perto da laringe, que é o seu destino final. Todavia continua para baixo, percorrendo todo o pescoço antes de inverter o sentido e fazer o caminho de volta até esta. Isto exemplifica na perfeição como os seres vivos estão longe de terem sido bem projetados e refuta consistentemente a ideia de um projetista inteligente…

Adaptado de O espectáculo da vida, Richard Dawkins