domingo, novembro 24, 2013

Como devo medir a minha vida?

Há milhares de textos sobre autoajuda. Nenhum é como o do professor de Harvard, Christensen - um dos raros livros que Steve Jobs recomendava. Trata-se do "How Will You Measure Your Life"? Um dos best-sellers mais vendidos de sempre - uma leitura obrigatória (para quem exerce cargos de gestão e não só). Do melhor que li nos últimos tempos.

  Livro online: Aqui

Alguns apontamentos do autor:  


Quando dou conselhos, em vez de dizer o que pensar, ensino como pensar. Quando me perguntam o que acho que devem fazer, raramente respondo diretamente...discorro sobre o tema e a partir de certo ponto as pessoas dizem: "pronto, já percebi". Nas aulas debruçamo-nos sobre as empresas a partir das lentes de cada uma das teorias estudadas. No último dia de aulas, peço-lhes para virar essas lentes teóricas sobre si próprios, de forma a encontrarem respostas a três perguntas:

1) Como posso ter a certeza que serei feliz na minha carreira?
2) Como posso ter a certeza que as minhas relações serão uma fonte duradoura de felicidade?
3) Como posso ter a certeza que não serei preso?


Em relação à primeira pergunta, e segundo Frederick Herzberg, o principal motivador na vida não é o dinheiro; é a oportunidade de aprender, crescer com as responsabilidades, contribuir para os outros e ser reconhecido pelas concretizações.
A forma como corre o dia do ponto de vista profissional, interfere com a forma como interagimos com a família, ao chegar a casa. Se o dia corre mal, isto afeta-nos a autoestima e perturba a maneira como lidamos com a família. A minha conclusão: a gestão é a mais nobre das profissões se for bem exercida. Nenhuma outra oferece tantas oportunidades de ajudar os outros a aprender e crescer, assumir responsabilidades e ser reconhecido pelas conquistas. Os estudantes de MBA pensam que uma carreira nos negócios significa vender, comprar e investir - isso é lamentável! Fazer begócios não produz as recompensas que resultam de desenvolver pessoas. Quero que os estudantes saiam da minha aula a saber isso.

Criar uma estratégia para a sua vida - Afete corretamente os seus recursos.

Em relação à segunda pergunta, é importante gerir os recursos da empresa de uma forma magistral, pois este facto tem implicações na vida pessoal dos trabalhadores. As empresas pensam a curto prazo de forma a obter retornos de uma forma rápida. Deviam, antes, investir em iniciativas a longo prazo. Ao longo dos anos assisti ao desenrolar do destino dos meus colegas de turma de Harvard em 1979; vi um número cada vez maior a aparecer em reuniões infeliz, divorciado e afastado dos filhos... Nenhum deles teria, naturalmente, planeado isso... Qual a razão? Não se mantiveram focados nas prioridades da sua vida. É surpreendente que parte significativa dos 900 estudantes que a HBS escolhe todos os anos (de milhares de candidatos) entre os melhores do mundo tenha dado pouca atenção às prioridades da sua vida. Eu digo aos estudantes que a HBS poderá ser uma das suas últimas oportunidades para refletirem sobre isso. Se pensam que o poderão fazer mais tarde, estão doidos, pois a vida ficará cada vez mais exigente. Para mim, ter um objetivo claro na vida foi essencial. Mas foi algo em que tive de pensar muito antes de o compreender. Quando fui bolseiro em Rhodes (em parceria com Oxford), estava num programa muito exigente. Decidi passar uma hora todas as noites a ler, pensar e refletir sobre outros aspetos fora do âmbito do meu estudo. Por cada hora que empregava a fazer isto não estava a estudar Econometria Aplicada. Apesar da "perda" de tempo, mantive o plano - e acabei por perceber o objetivo da minha vida. Aplico as ferramentas da Econometria algumas vezes por ano, mas aplico os restantes conhecimentos todos os dias.
Digo aos meus alunos que tentem perceber o seu objetivo de vida. Se não perceberem, apenas navegarão à deriva e serão fustigados nos mares turbulentos da vida. A profissão não é mais do que uma ferramenta para alcançar o seu objetivo. Sem um objetivo, a vida pode tornar-se vazia.
Quando penso nos meus antigos colegas de turma que afetaram erradamente os seus recursos (tempo, energia, talento...), não consigo deixar de acreditar que isso se deve ao facto de terem um perspetiva a curto prazo...enviar um produto, terminar um projeto, acabar uma apresentação, fechar uma venda, dar uma aula, publicar um estudo...ser pago e promovido...
Por outro lado, investir tempo e energia na relação com o companheiro e filhos não oferece o mesmo sentido imediato de sucesso. Os miúdos portam-se mal todos os dias...só passados vinte e poucos anos poderá dizer "criei uma boa pessoa". Se olhar para as vidas pessoais através desta lente perceberá que as pessoas afetam cada vez menos recursos às coisas que em tempos disseram ser as mais importantes...estão no caminho para o desastre, na vida e nos negócios!

Crie uma cultura

Ser um gestor visionário não chega. É necessário saber usar as ferramentas da cooperação - persuadir os funcionários a trabalhar na direção pretendida. Numa empresa temos, a este nível, duas dimensões:

a) medida em que os membros da organização concordam sobre o que querem da sua participação na empresa;
b) medida em que concordam sobre que ações produzirão os resultados desejados.

Quando existe pouco acordo entre estes dois eixos, tem de se usar "ferramentas de poder" - coação, ameaças, castigos... - para assegurar a cooperação. Normalmente as equipas novas deparam-se com este problema; por esse motivo, no início têm de ser muito assertivas. Com o passar do tempo os dois eixos tendem a convergir e o consenso começa a formar-se. Edgar Schein do MIT descreveu este processo como o mecanismo através do qual uma cultura é construída - as pessoas nem sequer pensam se a maneira de fazer as coisas produz sucesso. Adotam prioridades e seguem procedimentos sem haver necessidade de ordens ou decisões explícitas - significa que criaram uma cultura. É ela que dita de que forma os elementos do grupo resolvem problemas recorrentes e, muito importante, define a prioridade dada a cada problema.

Os meus alunos veem rapidamente que podem usar estas ferramentas de cooperação na educação dos filhos...mas chega uma altura, na adolescência, em que estas ferramentas já não funcionam. Nessa altura os pais desejariam ter começado a trabalhar com os filhos muito mais cedo para criar uma cultura em casa em que as crianças instintivamente se comportem com respeito, obedeçam aos pais e escolham as coisas certas a fazer. As famílias têm culturas, tal como as empresas. Se quer filhos com autoestima e sucesso na resolução de problemas, não espere por magias; tem de os envolver na cultura da família - e quanto mais cedo melhor. Eles desenvolvem autoestima fazendo coisas dificeis e aprendendo o que funciona.


Evitar o erro...e a prisão!

A última questão parece irrelevante, mas não é. Duas das 32 pessoas da minha turma de bolseiros de Rhodes cumpriram pena. E Jeff Skilling da Enron foi meu colega de turma na Harvard Business School (HBS). Eram bom tipos, mas algo na sua vida os pôs na direção errada. Muitas vezes utilizamos a doutrina dos custos marginais, quando escolhemos entre o certo e o errado. A justificação para a desonestidade está na ecomomia do custo marginal do "só desta vez". Se for desonesto uma vez, terá maiores probabilidades de voltar a sê-lo.

A importância da humildade

É crucial transportar o sentido de humildade pelo mundo. Quando chegar a um curso de mestrado ou de doutoramento quase toda a aprendizagem veio de pessoas mais inteligentes e com mais experiência: pais, professores, chefes... mas depois de ter concluído um destes graus, as pessoas com quem irá interagir diariamente, não serão, provavelmente, mais inteligentes. Se a sua atitude for a de que só as pessoas mais inteligentes têm algo a ensinar-lhe, as oportunidades de aprendizagem serão muito limitadas. Pelo contrário, se mantiver uma atitude humilde e pretender aprender algo com todas a pessoas, as oportunidades de aprendizagem serão ilimitadas.
Quando vemos pessoas a agir de forma abusiva, arrogante ou humilhante para com os outros, o seu comportamento revela sintomas de falta de autoestima - precisam de por alguém em baixo para se sentirem bem consigo.

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